Eu pude escutar o seu grito de dor naquelas primeiras semanas de janeiro, mesmo a alguns quilômetros de distância. Eu escutei perfeitamente quando você sussurrou baixinho pedindo bandeira branca, mesmo quando nossos orgulhos teimaram em tapar os meus ouvidos. Eu pude ouvir como música quando os teus olhares se cruzaram aos meus, o coração pulsou tão forte que nem mesmo aquela multidão poderia abafa-lo. Eu escutei teu sorriso torto fingindo que é feliz, escutei teu pedido de socorro me implorando para te tirar dali, escutei quanto tu gritastes (paradoxalmente) baixinho dizendo que nada daquilo desfazia a verdade do que existiu. Escutei o borbulhar da tua mente dizendo que não só existiu, mas ainda existia. Ouvi a tua consciência dizendo que era tarde demais para tentar pegar em minhas mãos, que não tinha mais sentido aqueles abraços, e que naqueles beijos estava apenas o passado. E eu percebi que nada poderia ser mais gritante e doloroso do que o silêncio. Parecia que tudo havia sido ensaiado exaustivamente, orquestrado por uma sinfonia das melhores. E, mesmo com tantos ensaios, nada fazia mais sentido. O meu orgulho não me deu a satisfação interna que eu achava que teria. As minhas certezas de vitória, de alcançar tudo aquilo, de estar fazendo o que convinha para os dois lados, para a situação, nunca chegaram a ser verdades. Continuo a escutar tuas músicas, teus gritos, teus risos, tuas dores, mas o mundo vem deixando cada vez mais abafado.
agosto; 2012.
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