terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

corpo, alma, mente.


Dia permeado de cheiros e emoções. Sensações que, até então, era duvidosa a possibilidade de senti-las. Quando a noite anterior denunciou que o destino tem a tendência de brincar com o jogo das probabilidades, ela lembrou que não havia jogado todos os dados. A verdade é que aquela mente, agora, de ilusória não tinha mais nada e que a perda das utopias não havia sido tão ruim assim. A senilidade permitiu que ela enxergasse certas coisas com novos olhos e permitiu que ‘certas coisas’ se tornassem ‘coisas novas’. Não existia mais o medo do desconhecido, de quebrar a cara, de se decepcionar. Hoje, ela percebeu que os anos que haviam passado tinham lhe dado sim a maturidade, mas que, acima de tudo, tinham lhe dado a possibilidade de voltar atrás sem que isso significasse andar para trás. Redescobrir-se, reestruturar-se, redesdobrar-se. Porque naquele peito ainda batia um coração que ansiava por mais liberdade, que ansiava que ela chave fosse jogada fora. Como já disse Milan Kundera, “sem dúvida, ela também acreditava bobamente que seu corpo podia servir de escudo de sua alma”. E essa alma estava presa a um corpo que talvez não fizesse jus a ela. Não por motivos estéticos ou coisas parecidas, mas sim por não demonstrar e expressar o que é nutrido lá dentro. E ela pede anistia daquela situação que há muito tempo não aguenta mais. Grita para o mundo que desnude os corpos para que, então, deem lugar para a alma. Não seria mais eficiente que, ao invés de externamente apresentarmo-nos como corpos, estivéssemos submetidos a uma primeira avaliação de nossas almas? E que, assim, os nossos corpos estivessem como uma camada interior apenas para nos dar uma estrutura física? 
Com todo esse jogo de perguntas, ela começou a refletir que, talvez, isso fosse possível. Lembrou-se de quando sentia as almas extravasassem em olhos que sorriem e provavelmente seria por isso que ela gostasse tanto de pessoas que o fazem, ou melhor, que o conseguem. Será que um dia iria conseguir? Será que um dia iria voltar a sorrir com os olhos? Queria que a vida respondesse esses questionamentos o quando antes, mas sabia que não se funcionava assim. Pensou na última vez em que o fizera e não tinha tanta certeza dessa cronologia. Talvez há um ou dois anos atrás. Nesse tempo, suas certezas eram fixadas da mesma maneira em que se desfaziam em segundos e ela não se incomodava com essa situação. Sorria para tudo e todos pela simples vontade de sorrir, pela ideia que um sorriso poderia trazer a outros rostos, pela chance de estes repetirem esse ato. Como em uma corrente contínua, ela queria ser o começo.  Não tardou para que as certezas fossem mais dissolvidas do que fixadas e não havia mais contrapesos para serem postos na balança. O déficit a incomodava porque, apesar de tudo, ela sentia falta de concretudes. Mesmo sabendo disso, insistia, pois acreditava que, uma hora ou outra, algo viria para compensar e equilibrar novamente. Esperou. Por um, dois, oito meses. A possibilidade de desistir a assustava, porque a de lutar contra isso parecia mais honrável. Não foi o suficiente.
Ela se viu sem os seus pesos e a balança foi encostada. Talvez tenha sido esse o momento em que ela parou de sorrir com os olhos. Olhando para trás e percebendo tudo isso, pensou que não deveria depender de ninguém, nem dos pesos e nem da balança. Porque já ouviu algumas vezes que um dos segredos para o equilíbrio é permitir-se desequilibrar. Talvez dar chances para o improvável seja uma situação de desequilíbrio, mas que seu saldo pode ser sim positivo. 

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