Dia permeado de cheiros e
emoções. Sensações que, até então, era duvidosa a possibilidade de senti-las.
Quando a noite anterior denunciou que o destino tem a tendência de brincar com
o jogo das probabilidades, ela lembrou que não havia jogado todos os dados. A
verdade é que aquela mente, agora, de ilusória não tinha mais nada e que a
perda das utopias não havia sido tão ruim assim. A senilidade permitiu que ela
enxergasse certas coisas com novos olhos e permitiu que ‘certas coisas’ se
tornassem ‘coisas novas’. Não existia mais o medo do desconhecido, de quebrar a
cara, de se decepcionar. Hoje, ela percebeu que os anos que haviam passado
tinham lhe dado sim a maturidade, mas que, acima de tudo, tinham lhe dado a
possibilidade de voltar atrás sem que isso significasse andar para trás.
Redescobrir-se, reestruturar-se, redesdobrar-se. Porque naquele peito ainda
batia um coração que ansiava por mais liberdade, que ansiava que ela chave
fosse jogada fora. Como já disse Milan Kundera, “sem dúvida, ela também acreditava
bobamente que seu corpo podia servir de escudo de sua alma”. E essa alma estava
presa a um corpo que talvez não fizesse jus a ela. Não por motivos estéticos ou
coisas parecidas, mas sim por não demonstrar e expressar o que é nutrido lá
dentro. E ela pede anistia daquela situação que há muito tempo não aguenta
mais. Grita para o mundo que desnude os corpos para que, então, deem lugar para
a alma. Não seria mais eficiente que, ao invés de externamente apresentarmo-nos
como corpos, estivéssemos submetidos a uma primeira avaliação de nossas almas?
E que, assim, os nossos corpos estivessem como uma camada interior apenas para
nos dar uma estrutura física?
Com todo esse jogo de perguntas,
ela começou a refletir que, talvez, isso fosse possível. Lembrou-se de quando
sentia as almas extravasassem em olhos que sorriem e provavelmente seria por
isso que ela gostasse tanto de pessoas que o fazem, ou melhor, que o conseguem.
Será que um dia iria conseguir? Será que um dia iria voltar a sorrir com os
olhos? Queria que a vida respondesse esses questionamentos o quando antes, mas
sabia que não se funcionava assim. Pensou na última vez em que o fizera e não
tinha tanta certeza dessa cronologia. Talvez há um ou dois anos atrás. Nesse
tempo, suas certezas eram fixadas da mesma maneira em que se desfaziam em
segundos e ela não se incomodava com essa situação. Sorria para tudo e todos
pela simples vontade de sorrir, pela ideia que um sorriso poderia trazer a
outros rostos, pela chance de estes repetirem esse ato. Como em uma corrente
contínua, ela queria ser o começo. Não
tardou para que as certezas fossem mais dissolvidas do que fixadas e não havia
mais contrapesos para serem postos na balança. O déficit a incomodava porque,
apesar de tudo, ela sentia falta de concretudes. Mesmo sabendo disso, insistia,
pois acreditava que, uma hora ou outra, algo viria para compensar e equilibrar
novamente. Esperou. Por um, dois, oito meses. A possibilidade de desistir a
assustava, porque a de lutar contra isso parecia mais honrável. Não foi o
suficiente.
Ela se viu sem os seus pesos e a
balança foi encostada. Talvez tenha sido esse o momento em que ela parou de
sorrir com os olhos. Olhando para trás e percebendo tudo isso, pensou que não
deveria depender de ninguém, nem dos pesos e nem da balança. Porque já ouviu
algumas vezes que um dos segredos para o equilíbrio é permitir-se
desequilibrar. Talvez dar chances para o improvável seja uma situação de
desequilíbrio, mas que seu saldo pode ser sim positivo.
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